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Pulmão para a VidaUnidade de Prevenção e Saúde Respiratória
O que fazer e quando

Rastreio do cancro do pulmão: a quem se dirige e a quem não se dirige

Uma TAC de baixa dose feita periodicamente pode evitar mortes por cancro do pulmão em quem fumou muito durante muitos anos. Fora desse grupo, os danos ficam e o benefício desaparece. Esta página explica onde está a fronteira.

Revisto a 29 de setembro de 2026Próxima revisão: março de 2027

1 · Resposta curta

Fazer periodicamente uma TAC de baixa dose — uma tomografia do tórax com pouca radiação — reduz o risco de morrer de cancro do pulmão em pessoas que fumaram muito durante muitos anos.1

Não se destina a quem nunca fumou nem a quem já tem sintomas, e não substitui deixar de fumar.

Em Portugal ainda não há um programa nacional. Há dois projetos-piloto no SNS desde abril de 2026, nas ULS de Gaia/Espinho e de Santa Maria.2 Fora dessas áreas, ninguém é convidado.

2 · O que a evidência mostra

Com rastreio e sem rastreio, lado a lado

Vários ensaios clínicos acompanharam durante cerca de dez anos dois grupos de pessoas com muitos anos de tabaco: um fez TAC de baixa dose periodicamente, o outro não. O maior ensaio europeu, o NELSON, é o mais próximo do modelo que está a ser testado em Portugal.3

Rastreio com TAC de baixa dosePor cada 1000 pessoas de alto risco, ao longo de cerca de 10 anos · valores aproximados
O que aconteceSem rastreioCom rastreio
Morrem de cancro do pulmão3325
Morrem por qualquer causaLigeiramente menos com rastreio no conjunto dos ensaios — cerca de 3 a 4 em cada 1000, com margem de incerteza4,5
Têm um resultado que obriga a repetir a TAC ou a fazer mais exames, e que acaba por não ser cancro0≈ 200
São tratadas por um cancro que nunca lhes teria causado problema0até ≈ 5

Mortes por cancro do pulmão e sobrediagnóstico: ensaio NELSON, homens. Os resultados que obrigam a mais exames concentram-se na primeira volta e descem muito nas seguintes.

A radiação de uma TAC de baixa dose é pequena, mas não é zero. Repetida durante anos, é um custo a contar.

Os cálculos estão explicados nas notas de cálculo.

Como ler estes números

A diferença entre 33 e 25 são 8 pessoas em cada 1000. É o mesmo facto que noutros sítios aparece como «o rastreio reduz a mortalidade por cancro do pulmão em cerca de 20 a 25 por cento». É verdade — e é a mesma coisa. Parece maior porque é uma percentagem de um número já pequeno.

O benefício depende do risco de partida. No conjunto de 11 ensaios, que incluíram pessoas com riscos mais variados, a diferença foi menor: cerca de 4 em cada 1000 ao longo de nove anos.1 Quanto mais alto o risco de quem é rastreado, maior o benefício. É por isso que os critérios existem.

Em quem tem risco baixo, os exames adicionais e o sobrediagnóstico continuam a acontecer — só o benefício desaparece.

3 · O que fazer na prática

Isto aplica-se a si?

Os projetos-piloto portugueses seguem os termos de referência da DGS, que definem estes critérios:6

Pode ter indicação para rastreio quem tem entre 55 e 74 anos, fuma ou deixou de fumar há menos de 10 anos, e fumou o equivalente a um maço por dia durante pelo menos 20 anos — 20 ou mais «maços-ano». Dois maços por dia durante 10 anos também são 20 maços-ano.

Não há indicação para rastreio em quem nunca fumou, em quem fumou menos do que isso, em quem deixou de fumar há 10 anos ou mais, abaixo dos 55 anos e acima dos 74 — neste último caso porque não existe boa evidência sobre o equilíbrio entre benefícios e riscos nessa idade.

Outros países e sociedades científicas usam limites um pouco diferentes, sobretudo na idade de início e no tempo desde que se deixou de fumar. Não há ainda consenso internacional sobre o modelo ideal.7

Cumprir os critérios não significa que vá ser convidado: fora das áreas dos projetos-piloto não há rastreio organizado. Significa que faz sentido falar sobre o assunto com o seu médico de família. Se tem dúvidas sobre a sua situação, faça o plano pessoal.

Se for rastreado, o que acontece

  1. Faz a TACFaz uma TAC de baixa dose, sem contraste nem agulhas, que dura poucos minutos.
  2. Recebe o resultadoA maioria dos resultados é normal. Um resultado «indeterminado» significa quase sempre repetir a TAC ao fim de alguns meses, para ver se um pequeno nódulo cresce — a grande maioria não cresce.
  3. Se o resultado for suspeitoÉ encaminhado para uma consulta especializada de diagnóstico.
  4. Se fumaÉ-lhe proposto apoio para deixar de fumar: os termos de referência preveem essa ligação.6 Não é um extra — é a parte do processo com maior efeito na sua saúde.
4 · O que não vale a pena

E porquê

Radiografia do tórax como rastreio

Foi estudada em ensaios de grande dimensão e não reduz a mortalidade por cancro do pulmão.8 Uma radiografia normal não exclui um cancro pequeno. Se lhe oferecerem uma radiografia «para despistar o cancro do pulmão», está a receber tranquilidade sem fundamento.

TAC por iniciativa própria, fora de um programa

Sem critérios de seleção, sem protocolo para os nódulos encontrados e sem circuito de seguimento, uma TAC encontra sobretudo pequenas alterações sem significado, que geram exames, consultas e meses de ansiedade. O benefício demonstrado vem do programa completo, não da máquina.7

Análises ao sangue vendidas como deteção precoce

Não existe hoje nenhum marcador no sangue validado para rastrear o cancro do pulmão na população. Há investigação em curso, mas ainda nenhum resultado que justifique usá-los fora de estudos.

Fazer rastreio em vez de deixar de fumar

É o erro com maiores consequências. O rastreio atua sobre uma doença; deixar de fumar atua sobre o cancro do pulmão e sobre praticamente todas as outras doenças causadas pelo tabaco, com um efeito muito maior.9 As duas coisas somam-se; nenhuma substitui a outra. Veja Deixar de fumar: o que resulta e o que não resulta.

5 · O que ainda não sabemos

Zonas de incerteza reconhecida

  • O benefício nas mulheres. O NELSON incluiu poucas mulheres. Os resultados apontam para um benefício pelo menos semelhante ao dos homens, mas com maior margem de incerteza.3
  • A dimensão real do sobrediagnóstico. As estimativas variam entre estudos e tendem a descer com mais anos de seguimento.1
  • O intervalo e a duração ideais. Anual ou de dois em dois anos? Durante quanto tempo? Não há resposta firme.1
  • Quem mais deveria ser incluído. O radão, as exposições profissionais e a história familiar aumentam o risco, mas não há critérios de rastreio validados com base nesses fatores. Há estudos em curso em pessoas que nunca fumaram.
  • Se funciona no SNS. Funcionar num ensaio e funcionar num sistema de saúde real são coisas diferentes. É isso que os projetos-piloto vão medir.
6 · Onde obter ajuda

O que pode fazer a partir de hoje

Em qualquer ponto de Portugal
  • Fale com o seu médico de família. Leve a sua história de tabaco: durante quantos anos fumou, quantos cigarros por dia e, se deixou, há quanto tempo.
  • Não conte com um convite se não vive nas áreas dos projetos-piloto. Não é esquecimento: é o estado atual do programa.
  • Se fuma, peça apoio para deixar de fumar. É a medida com maior efeito disponível hoje para todos.
  • Se tem sintomas, não espere por rastreio. Tosse que dura mais de três semanas, sangue na expetoração, falta de ar nova ou perda de peso sem explicação justificam consulta. Veja Sintomas respiratórios que não são normais.
Na área da ULS da Região de Aveiro

O Pulmão para a Vida é a Unidade de Prevenção e Saúde Respiratória do Serviço de Pneumologia da ULS da Região de Aveiro.

  • Preparação do rastreio do cancro do pulmãoem preparação

    Esta resposta está em preparação. Até lá, siga as indicações acima, válidas em todo o país.

  • Cessação tabágica intensivaem preparação

    Esta resposta está em preparação. Até lá, siga as indicações acima, válidas em todo o país.

Ficha técnica

Autoria
Serviço de Pneumologia ULSRA
Revisão científica
Serviço de Pneumologia ULSRA
Publicado
26 de julho de 2026
Última revisão
29 de setembro de 2026
Próxima revisão
29 de março de 2027, ou antes, se a DGS publicar resultados dos projetos-piloto
Grau de evidência
Alto para a redução da mortalidade por cancro do pulmão em pessoas de alto risco (vários ensaios aleatorizados e revisão sistemática). Moderado para a dimensão dos danos e do sobrediagnóstico. Baixo para a aplicação ao contexto português, que está a ser avaliada nos projetos-piloto.
Interesses
Projeto de literacia em saúde com foco na prevenção do Serviço de Pneumologia da ULS Região de Aveiro (SNS). Sem publicidade nem patrocínio comercial. Declaração completa

Notas de cálculo

Mortes por cancro do pulmão (33 e 25 por 1000). O NELSON reportou, nos homens, cerca de 3,3 e 2,5 mortes por cancro do pulmão por 1000 pessoas-ano aos 10 anos de seguimento.3 Multiplicar por 10 anos dá cerca de 33 e 25 por 1000 — uma aproximação que ignora as saídas do estudo ao longo do tempo.

Mortalidade por qualquer causa. No NLST observou-se uma redução pequena mas estatisticamente significativa;4 na meta-análise que juntou o ensaio britânico UKLS aos ensaios anteriores também se observou uma pequena redução.5 Os «3 a 4 em cada 1000» indicam uma ordem de grandeza, não um valor exato.

Resultados que obrigam a mais exames (≈ 200). Ordem de grandeza de uma pessoa em cada cinco com os protocolos europeus de avaliação de nódulos por volume, concentrada na primeira volta. Nos ensaios com critérios mais antigos, a proporção foi superior.

Sobrediagnóstico (até ≈ 5). Aplicação do limite superior estimado no NELSON, perto de 9 por cento dos cancros diagnosticados, à incidência de cancro do pulmão no grupo rastreado.3 É um limite superior, não uma estimativa central.

Benefício no conjunto dos ensaios (≈ 4 por 1000). A revisão Cochrane de 11 ensaios estimou que seria preciso rastrear cerca de 226 pessoas durante cerca de nove anos para evitar uma morte por cancro do pulmão — cerca de 4 a 5 por 1000.1

Correções

  • 29 de setembro de 2026 — Acrescentado o critério dos ex-fumadores — deixaram de fumar há menos de 10 anos —, que consta dos termos de referência da DGS e faltava na versão anterior.
  • 29 de setembro de 2026 — Corrigida a linha da mortalidade por qualquer causa. A versão anterior dizia que não tinha sido demonstrada diferença; o NLST e a meta-análise com o UKLS mostraram uma pequena redução.
  • 29 de setembro de 2026 — Retirado o prazo de 30 dias para consulta após um resultado suspeito, que não foi possível confirmar nos documentos públicos.

Fontes

  1. Revisão sistemáticaBonney A, Malouf R, Marchal C, et al. Impact of low-dose computed tomography (LDCT) screening on lung cancer-related mortality. Cochrane Database Syst Rev. 2022;8(8):CD013829. Consultar
  2. LegislaçãoDespacho do Governo que determina a implementação de projetos-piloto de rastreio do cancro do pulmão no SNS, nas ULS de Gaia/Espinho e de Santa Maria. Diário da República; em vigor desde 10 de abril de 2026.
  3. Ensaio clínico aleatorizadode Koning HJ, van der Aalst CM, de Jong PA, et al. Reduced lung-cancer mortality with volume CT screening in a randomized trial. N Engl J Med. 2020;382(6):503-513. Consultar
  4. Ensaio clínico aleatorizadoNational Lung Screening Trial Research Team. Reduced lung-cancer mortality with low-dose computed tomographic screening. N Engl J Med. 2011;365(5):395-409. Consultar
  5. Revisão sistemáticaField JK, Vulkan D, Davies MPA, et al. Lung cancer mortality reduction by LDCT screening: UKLS randomised trial results and international meta-analysis. Lancet Reg Health Eur. 2021;10:100179. Consultar
  6. Norma ou orientação oficialDireção-Geral da Saúde. Orientação n.º 003/2025, de 31/07/2025: Termos de referência para projetos-piloto para o rastreio do cancro do pulmão. Lisboa: DGS; 2025. Consultar
  7. Recomendação de sociedade científicaKauczor HU, Baird AM, Blum TG, et al. ESR/ERS statement paper on lung cancer screening. Eur Respir J. 2020;55(2):1900506. Consultar
  8. Ensaio clínico aleatorizadoOken MM, Hocking WG, Kvale PA, et al. Screening by chest radiograph and lung cancer mortality: the Prostate, Lung, Colorectal, and Ovarian (PLCO) randomized trial. JAMA. 2011;306(17):1865-1873. Consultar
  9. Estudo observacionalJha P, Ramasundarahettige C, Landsman V, et al. 21st-century hazards of smoking and benefits of cessation in the United States. N Engl J Med. 2013;368(4):341-350. Consultar
  10. Norma ou orientação oficialConselho da União Europeia. Recomendação do Conselho, de 9 de dezembro de 2022, relativa ao reforço da prevenção através da deteção precoce: uma nova abordagem da UE em matéria de rastreio do cancro (2022/C 473/01). Consultar